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Candonga

Mercado negro de ideias da minha cabeça.

Candonga

Mercado negro de ideias da minha cabeça.

19 de Janeiro, 2022

Noite bem passada

Bruno Gouveia

Hoje acordei revigorado. Só me lembro de acordar de noite porque a minha namorada me relatou alguns episódios. Quase nenhum com importância para ressalvar. Pelos vistos a meio da noite ficou muito calor no quarto e tive de desligar o aquecimento. Isto porque o automatismo que criei com um termostato da Shelly não funciona muito bem e aquece demasiado a divisão. Se baixar, aquece pouco. Não deixa colocar meios graus.  Dormimos bem, o bebé foi mamando deitado à medida que pedia mama. Não trocámos foi muitas vezes a fralda, espero que não tenha mal.

Ainda me surpreende quão altos são os peidos do bebé. Com um ânus tão pequeno, como é que fazem tanto barulho como os meus? É um mistério que espero que a ciência explique.

O Gaspar está a ter problemas a dormir no berço. Lemos algumas dicas da Andreia Neves, no livro "O sono do meu bebé". Ela recomenda, nos primeiros meses de vida, ter uma grande ligação física com o bebé e, para isso, aconselha o uso do marsúpio. Fomos buscá-lo e fui o primeiro a experimentar. Funciona lindamente, aquece-me o peito por fora, com o calor do bebé, e por dentro, por estar tão perto dele e presenciar todos os seus sons e balbucios.

18 de Janeiro, 2022

Início do Descanso

Bruno Gouveia

Peguei num copo de aguardente para beber e escrever. Acabei por não escrever. Li poesia de Ângelo de Lima, alguns poemas declamei-os aos meus amigos pelo Discord. Tem dois ou três poemas bons e que batem fundo mas a grande maioria não me disse nada. O pára-me de repente o pensamento é realmente incrível. Os poemas que servem de odes a divindades mitológicas não me fazem sentir nada, até porque não acrescentam nada, limitam-se a repetir os seus nomes, precedidos de Ó. E seios, o homem está sempre a escrever sobre seios.

Poeta Ângelo de Lima.jpg

 

Além disso, fiz uma tabela para pensar sobre o meu trabalho, para levar à terapia. Não gosto de trabalhar e agora tenho até à próxima semana para pensar como isso me faz sentir. Faz-me sentir preso, acorrentado a uma obrigação que me dá a qualidade de vida que conquistei. É muito provável que não o consiga fazer de outra maneira. Não sou infeliz na totalidade, há coisa que preferia não fazer mas e então? É um caminho, faz parte da minha arte e poesia. Preciso de sustento para mim e para os meus, de alguma corda que me agarre à realidade e que me impeça de sucumbir à loucura e acabar por ir parar a um hospital psiquiátrico. Talvez um dia consiga fazer dos sonhos pão. Mas até lá… Eu aguento. Preciso de pensar se quero continuar onde estou, perceber se fazer um refresh de empresa me ajuda a motivar. E, em paralelo, trabalhar na criatividade. Deitar cá para fora a minha alma, que Ângelo de Lima diz despertar dos sonhos. Ou talvez não, não quero que a alma me desperta, mas que me adormece e leva num leito de optimismo. Vou querer fazer e vou fazer, vou ser e serei. O resto é acessório ao caminho, é o corrimão de umas escadas que não vemos se sobem ou se descem. Em vez de descer um degrau a mais, vou saltar três de uma vez com o esforço de subir uma escada rolante.

Sobre o Gaspar, hoje fomos fazer o teste do pezinho e a consulta da primeira semana. Tirando ter sujado o casaco na parede da sala de espera do centro de saúde e ficar irritado com a possibilidade de chegar atrasado à consulta (que não aconteceu, mas apanhar o pássaro morto - dado de oferta pelo meu gato, como que oferenda ao recém chegado -  e aspirar as dezenas de penas espalhadas pela casa adicionou ali dez minutos ao ritual matinal), estava tudo bem. Já recuperou todo o peso e até ganhou 20g. De resto, tudo óptimo. A enfermeira sugeriu que mentissemos para ser elegíveis para a vacina da tuberculose. Disse-me para declarar que o bebé vai estar durante os primeiros meses de vida com a avó numa zona de alto risco de tuberculose, pois a nossa zona não permite que leve a vacina. O resto do dia foi normal e depois de jantar demos-lhe banho. Não atinámos com a banheira e fomos meio toscos a dar o banho. Mas fez-se. Ah, e ao limpar o coto umbilical, que segundo as enfermeiras está quase a cair, percebemos que tinha lá enfiados fios dos restos da etiqueta do body. Pessoal que faz bodies e outras roupas para bebés, não coloquem etiquetas junto à parte que fica em contacto com o umbigo do bebé, por favor. A não ser que queiram transformar o coto umbilical num Furby.

E comecei um soneto, para tentar perceber a poesia, a olhar para o meu filho. Primeiro esboço, para terminar nos próximos dias:

 

Lindeza que é bela e pura

Desejos de ser pé de bravura

Pele rosa, que nada é couro

Começas agora, tal calouro

 

É o filho que veio ao mundo

Incumbe-me de velho apoio

Crescer diante os olhos

Futuro este que não é meu

 

Sono aquele que já não volta

Dado de oferta à vida nova

17 de Janeiro, 2022

Rotina eminente

Bruno Gouveia

Já se estão a normalizar as coisas. Dormi horas suficientes, consegui aproveitar a manhã para descansar. Almoçamos restos de vitela que sobrou da oferta dos pais da minha namorada, que no dia anterior nos vieram trazer o almoço.

Recebi postais e 100 euros da Amazon dos meus colegas de trabalho. Os postais digitais eram engraçados e notou-se que se dedicaram a fazer aquilo. Dei banho à cadela. Correu bem, melhor do que o habitual, até. Tomei banho. Vieram senhoras limpar a casa. Recebi uma encomenda, caí nas escadas ao entrar em casa. Fui levar a minha mãe ao autocarro. Comprei salgadinhos do Crystal Palace. Soube-me bem conduzir, devagar. Emocionei-me ao voltar para casa a pensar que os meus colegas foram atenciosos comigo. Soube bem.

Voltei para casa. As senhoras acabaram de limpar. Foram embora. Passou-se tempo. Pedi sushi. Corrigi erros ortográficos dos diários dos dias anteriores. Chegou o sushi. Não veio o camarão panado. Pedi reembolso. Recebi reembolso. Comemos. Vimos o Polígrafo. Fez algum sentido, ao analisar os debates. Agora quando vão ver se uma publicação do Facebook feita por um Zequinha qualquer é verdade ou não… Isso não entendo, é estar a dar credibilidade à diarreia. Não é que não a tenha, agora passar no telejornal já não faz sentido. E o que raio é a pimenta na língua? Porque é que fazem juízos morais sobre a verdade? Deviam ser jornalistas, não catequistas irritados.

Vimos o Ricardo Araújo Pereira. Foi engraçado. Teve muita publicidade. Viemos para a cama. Limpamos o coto umbilical. Eu fiz shhh para o bebé acalmar. Fiz chás. Bebemos chás. Comecei a ler o "waiting for Godot". Não estou a perceber nada. O bebé chorou. Mudámos a fralda. Escrevi no diário. Conto as palavras. Faltam 20. Agora faltam 10. Vou dormir. Estalo os dedos dos pés. O bebé mama.

16 de Janeiro, 2022

Lar doce lar

Bruno Gouveia

Já estamos instalados. Depois de uma noite bem difícil de cólicas, o novo dia presenteou-nos com um bebé que adora comer. Mama incansavelmente, defeca e micta sem problemas e com a palete de cores indicada. Os avós dele ajudaram-nos imenso e tudo corre bem. Mas ser pai parece tarefa para pelo menos 5 pessoas, e nós somos só dois com algumas aparições recorrentes. Mas a coisa vai funcionar. Hoje já deu para ver alguma TV e a cadela respeita o moço.

Estou exausto, estou, mas com um sentimento de dever cumprido e com a expectativa que a parentalidade se torne uma rotina.

Nem tenho muito mais sobre o que falar. Estou muito curioso para ver o Gaspar a continuar a desenvolver-se. Todas as conquistas dele até agora têm sido incríveis de presenciar. Nem imagino como será a primeira palavra, a entrada na escola, o terminar o curso superior e o ser avô. Se ele quiser, claro. Passei muito tempo a pensar que a melhor altura da vida é a faculdade mas começo a duvidar, e ainda só tenho três dias como pai.

Mais pensamentos... Hmm... Fica difícil de pensar neste cansaço bom, mas vou tentar. O registo do miúdo, ser feito online é uma prova que já vivemos realmente tempos evoluídos. Pelo contrário, as contas à licença de paternidade são o doutoramento em álgebra que não precisava. Para a mãe é dias seguidos e para o pai é só úteis. Depois dá para partilhar e assim ter mais dias, mas os que foram todos em conjunto contam em simultâneo, não se adicionam. É uma matemática complicada que não devia ser.

E agora vou ver o debate do Rio vs Costa. Vi imensas reações e reações âs reações mas ainda não tive oportunidade de assistir ao original. Vamos lá ver o que originou a necessidade da "graçola" de Rio e o ataque a pés juntos de Costa.

Hoje não sei se cumpro a minha meta, não contei as palavras. Amanhã vê-se.

15 de Janeiro, 2022

A chegada

Bruno Gouveia

O último dia no hospital começou com a possibilidade de o miúdo ter icterícia. Acordei depois de dormir umas 5 horas. Recebemos vizinhos novos no quarto e o bebé deles estava quase colado a mim, aos berros. E por mais estranho que pareça, adormeci embalado com o choro dele. Com isso e com o Spike, uma imagem mental que criei para me ajudar a dormir. É um desenho animado, a preto e branco, cabelo espetado e negro, cara magra e queixo fino para fora, com o super-poder de transformar qualquer parte do corpo em agulha. Foi para isso que a minha cabeça se virou para me fazer dormir em situações inóspitas.

Voltando à icterícia, acordei com a enfermeira a tirar sangue do pé do miúdo e a minha namorada a dizer-me que ele pode ter esta doença. Parecia um pouco amarelo então quis fazer o teste. E bem.

Isto passou-se. Uma hora depois fomos praticar o banho do bebé, em que fui eu o feliz contemplado. Tirando, com a moca de sono, quase meter na água o miúdo vestido, a coisa correu bem. Segui as instruções e ele ficou lavado. Limpar o coto umbilical também foi o seu desafio, aquilo parece um caracol seco e é mesmo estranho mexer lá.

Lá para a uma da tarde, chegou a pediatra com a notícia que íamos ter alta naquele dia. Suponho que signifique que o resultado do teste foi negativo, caso contrário teríamos de ficar lá mais um dia com o bebé a fazer fototerapia. Esperamos mais duas horas e saímos do hospital. Recebemos bom feedback da nossa capacidade de prender um recém-nascido na baby cock e vim a conduzir para casa. Aterrador conduzir com um filho no carro. Cada rotunda parecia um exercício militar Russo na fronteira com a Ucrânia.

Chegando a casa, montei o berço de viagem, para ter um sítio na sala para deitar o bebé. Só a montagem foi um desafio, aquilo tinha tantas instruções como o meu miúdo acabado de nascer. Mas lá se fez.

Introduzimos a Leia, a cadela, ao moço. Outro momento de terror. Estava sempre a pensar que ela o ia comer. Tomámos todas as precauções, mantendo-a presa enquanto cheirava as roupinhas, primeiro, e depois a própria criança. Correu bem, ela ficou mesmo muito calma com toda situação, o que nem é normal da parte dela.

Tive também um momento incrível com a minha mãe, que conheceu pela primeira vez o bebé. Ela ficou tão emocionada que me emocionei também. Dos melhores abraços que tive com ela. Mencionou que não esperava viver tempo suficiente para ser avó. A força dela garantiu que isso acontecesse.

Agora o negativo, estar em casa, sem o apoio das enfermeiras não é ser fácil. Amamentar voltou a ser um desafio complicado para a mãe mas foi superado com perseverança e dedicação. Os choros intensos e cocós com tons da nova coleção primavera-verão deixam-nos em estado de alerta constante. É muito difícil cuidar de um bebé quando não se faz ideia do que está a acontecer, se tem cólicas, frio, quer mamar, tem a fralda suja, apanhou uma transmissão extraterrestre...

14 de Janeiro, 2022

O dia seguinte

Bruno Gouveia

Sou pai. Já se pode dizer. Tenho um bebé a meu encargo. Não é que eu faça muito, a mãe é que dá a mama e o percebe melhor que eu. Mas já mudei uma fralda, dei o meu dedo a morder para levar a vacina, fui tentar registá-lo e desisti por a administrativa ser uma besta.

Estou muito mais tranquilo. Ontem as enxaquecas e o cansaço puseram-me um medo que agora vejo que é absurdo. Parecia que todos os segundos iam passar a ser deste pequeno novo ser. Hoje vejo que não é assim. Ele exige toda a nossa dedicação mas não deixamos de ter vida. É uma questão de adaptar horários e tudo se faz. É possível descansar. Espero que continue assim, tenho amigos que não tiveram sorte em relação às cólicas dos seus filhos.

Ele já pega, depois de tarefas árduas a dar de mamar. A mãe já se sente confiante e consegue fazê-lo. Grande acontecimento. Com ela também está tudo a progredir bem. As enfermeiras são todas excelentes, dando um apoio infindável. Em suma, tudo óptimo.

Não me deu para continuar com pensamentos negativos. Estou tranquilo e descansado, dentro do possível que é descansar num cadeirão que me dá cabo das costas e a ser acordado por pessoas aleatórias a entrar no nosso cantinho.

Por falar em pessoas, hoje houve vários médicos e estagiários a fazer exames ao pequenote. A maioria nem sabia o que eram. Mas depois de muitas lutas com as máquinas velhas, a coisa deu-se. O pediatra desconfiou que tinha icterícia mas a chefe dele tirou essas dúvidas, está tudo bem.

E agora é ver TV, canais por cabo claro. Ontem a enfermeira auto-congratulou-se por terem conseguido TV por cabo no hospital. É óptimo mas se calhar trancas nas casas de banho seria melhor. Mas não foi, então é aproveitar e ver o Governo Sombra.

13 de Janeiro, 2022

O Dia

Bruno Gouveia

Entrada

Depois da luta contra o manípulo da cadeirinha do bebê no carro, chegámos ao hospital. Os corredores são como caixas de bolachas, com pés-direitos minúsculos. Médicos e enfermeiros tomavam cafés nos corredores. No bloco de partos encontrámos uma parede repleta de nomes e divertimo-nos a procurar os nossos como se fosse uma sopa de letras. Descobrimos que tem repetidos. A minha namorada foi chamada. Pouco depois veio uma enfermeira e pediu-me o boletim da grávida que se encontrava perdido algures num dos 2000 bolsos que tem a mochilinha do bebé. Se pensava que as malas das senhoras eram autênticos buracos negros, as mochilas de bebés são inspectores gadget de arrumação.

Já estamos no quarto para o parto há umas horas. A dilatação avançou bem. Sinto-me noutra realidade. Não consigo lembrar-me de todos os detalhes mas sei que atar a bata atrás das costas foi um desafio. Isso e arrumar as tralhas no cacifo. Não sou dado a arrumações e sempre que é preciso ir buscar alguma coisa ou arrumar outra vejo-me às aranhas com tantas malas e bolsos.

Agora ela descansa e o alarmezito tá sempre a apitar. Cada toque que aquilo dá é um aperto no peito de ansiedade, de pensar que alguma coisa está a correr mal. Eles deviam mudar o barulho das maquinetas, por uns soundbites dos apanhados ou coisa do gênero, para a malta relaxar um bocado.

 

Saída

Já está cá fora. Depois de muitos tremores, muitos barulhos da máquina, muita gente a ir e a vir e uma falsa partida, saiu. É lindo o raio do moço. Parecia um alienígena a sair com a cabeça toda espetada mas depois ficou a pessoa mais linda do mundo. A minha namorada foi Super Guerreira do empurranço. E agora o miúdo está a mamar. Campeão. Toda a gente foi incrível connosco. Sempre com muito sentido de humor, piadas para aqui e para ali. 10/10 



Foi-me a cabeça. Estou com cocó e não consigo fazer porque não tenho a certeza que a porta da casa de banho dos homens tranca. Só fiz metade. Mas já mudamos uma fralda e foi incrível ser mijado em cima. O moço é bastante tranquilo. É difícil de pôr a mamar mas quando pega dá tudo. Sinto-me exausto, mais do que a mãe. Por mais amáveis e prestáveis que as pessoas do hospital sejam, sinto-me sempre num ambiente inóspito. Mas só não me sinto assim em casa, por isso tenho de aguentar. A Marta está bem também, nem acusa cansaço.

Fiquei a pensar na mensagem que o meu pai me enviou. Disse-me que agora já sei o que é amor de pai. E eu levei muito a mal. O primeiro reflexo foi pensar que ele não teve amor por mim, que ele não sabe o que é isso. Agora reflito que posso estar a ser injusto. Por pior pessoa que tenha sido com a minha mãe, e foi porque a vi durante os anos a chorar quando ele ligava e ela percebia que não ia deixar a outra família dele. E eu abraçava-me a ela sem perceber o que se passava enquanto ela engolia os sentimentos e me criava. Mas ele aparecia ás vezes. Ia-me buscar à escola e a lanchar marisco. Foi connosco à praia quando eu era mesmo chavalinho. Levava-me a ver os aviões no aeródromo de Viseu e as rotundas enfeitadas no Natal. E dava um cheque de 60 contos por mês à minha mãe para me criar. Deu-me mesada na faculdade, lavou-me o carro de borla no self-service dele. Para acabar em beleza, hipotecou a casa que me ofereceu para crescer com a minha mãe e não a conseguiu pagar. Parece que este acto levantou todos os ódios adormecidos que sentia e fiquei ainda mais distante. Ele também, acho eu. Percebeu o que fez. Não se lembra de aniversários, sempre teve um pouco de dificuldade em saber que idade tinha, mesmo em miúdo. Deixou de insistir tanto, e eu de fazer o esforço de atender. Conversas cada vez mais curtas. Um desgosto a fermentar. Até hoje que sou pai. E que sei que não quero ser como ele, que sem esforço eu sou melhor e vou-me esforçar para nem haver comparações com a paternidade dele. Não vou abandoná-lo. Sim, abandono é o que sinto. Por mais gestos bons que ele acha que teve comigo, nunca foi meu Pai. Nunca fez por perceber os meus gostos e desiludia-se quando não ligava pivete à bola, nem à caça, nem a fazer desporto. Fui uma desilusão e ele em dobro.

12 de Janeiro, 2022

O dia anterior

Bruno Gouveia

É a noite anterior à ida para o hospital. Amanhã vamos ser internados para indução. Acho que temos tudo preparado e estou confiante que vai tudo correr bem. Ia dizer que rezo para que nasça amanhã e não se prolongue mais no tempo, mas eu não sou religioso e não respeito quem é. Vou falar disso mais à frente. Voltando ao nascimento do rebento, estou bastante expectante e um pouco aterrorizado. Nunca mudei uma fralda e só peguei num bebé uma vez. Vai ser qualquer coisa de extraordinário. Mal posso esperar

Dando um pezinho na religião: eu falo muito mal de quem é religioso e de figuras que representam religiões. A minha namorada e a minha mãe não gostam nada que esteja sempre a fazer isso. Elas dizem-me que tenho de respeitar as crenças dos outros mas eu duvido disso. Qual a razão para o fazer? Se eu decidisse insultar alguém no meio da rua, as pessoas iam-me respeitar? Acho que não. É o mesmo cenário. Uma pessoa religiosa insulta-me, insulta a minha inteligência e a de todos que consegue pensar mais de 2 minutos sobre um tema. Isto não significa que abomine essas pessoas. Elas podem ser amigas, simpáticas, referências científicas, fazer imenso bem à humanidade mas no domínio do ter dois palmos de testa falham redondamente. Eu também falho, não sei dar um chuto numa bola, é igualmente deprimente. 

Não quero aqui fazer juízos de valor. A religião não passa de mais um assunto. As pessoas podem ter “blind spots” em várias áreas. Não acredito que toda a gente que vote em partidos da extrema direita sejam abomináveis, a maior parte das vezes são pessoas enganadas. Tal como os religiosos. Mas não as respeito, nesse sentido. Agora se fizerem bons origamis, são as maiores.

Para terminar, vou-me rebolar na cama, de um lado para o outro; Dobrar as almofadas de três maneiras diferentes, cobrir-me e descobrir-me com todas as cobertas possíveis; Olhar para o telemóvel para ver as horas e acabar por percorrer o reddit de uma ponta à outra. Isto para amanhã de manhã estar fresquinho para ter um filho.

11 de Janeiro, 2022

Notas para a terapia

Bruno Gouveia

Aqui vai um texto para concluir a semana, em jeito de semanário.

Terminei a primeira revisão do episódio piloto da série Faculdade. Acho que ainda está longe de ser o produto final. Vou continuar a escrever a bíblia, ter uma ideia da história como um todo e depois deixar duas semanas em lume brando, distanciar-me do que fiz para voltar com um olhar refrescado. Para a semana que agora começa (e eu começo as semanas às terças, ninguém me impede) tenho como objectivo terminar o logline dos 10 episódios. Não só uma ideia vaga do episódio mas ter já uma estrutura de todos eles com os key plot points definidos. Além disso, quero melhorar a construção das personagens, dar-lhe características e ambições.

Fiz também esboços de alguns episódios, numa tirada de inspiração que tive na noite a seguir ao meu ataque de ansiedade. Este “ataque” foi causado por uma bola de neve de pensamentos horríveis sobre a paternidade e irritação extrema. Sempre achei que não estava ansioso o suficiente por ser pai, que não estava a ter o peso devido na minha vida. Provei-me o contrário e passei a noite sem dormir. Segundo a terapeuta, estar mais em contacto com as emoções promove a criatividade. Espero que sim, vou ter muitas pela frente. 

Testei uma técnica também. Estava bloqueado na escrita, mesmo sem saber o que fazer, aborrecido até. Fechei-me no quarto, às escuras, sem qualquer distração, apenas a pensar. Comecei a vaguear nas ideias e surgiram-me pessoas a quem posso enviar o guião. Foi bastante produtivo e irei tentar novamente.

Acabei de ler o “Bird by Bird”, mas já escrevi sobre isso ontem. Percebi que sou mais criativo à noite por sentir que tenho o tempo e espaço para mim, que estou em controlo e não tenho distrações como tarefas domésticas ou pessoas com quem falar. Durante o dia, sou mais produtivo em tarefas mais operacionais, como formatar textos, editar, experimentar software, fazer pesquisas ou ler.

Decidi também aumentar os meus objetivos e começar a escrever 300 palavras por dia. Mesmo que não seja do meu projeto principal, apenas escrever. Nem que seja pensamentos idiotas neste diário. E acho que vou ter muitos. Isto ainda se vai tornar no diário do bebé. Outra rotina que quero implementar é, nos dias de terapia, fazer um resumo da semana e dos objetivos para a seguinte. E é isso que estou a fazer agora.

Tenho agora que identificar quais os círculos, ou categorias, do meu trabalho existem e listar o que me preenche e o que me faz infeliz em casa uma delas. Isto para depois perceber o que tenho de mudar em cada uma delas e qual o passo a seguir. Amanhã trato disso.

10 de Janeiro, 2022

Lá vai o pássaro, por pássaro

Bruno Gouveia

Hoje acabei o “Bird by Bird”, de Anne Lamott, um livro sobre escrita e vida. Principais aprendizagens:

  • Escrever polaroides, imagens que foquem numa pequena moldura e que capturem a essência de um momento;
  • Definir curtas tarefas de escrita;
  • Escrever first drafts rapidamente e sem preocupação com a qualidade;
  • Escrever no mínimo 300 palavras por dia;
  • Escrever notas sobre as mais variadas coisas que nos evoquem sentimentos ou memórias,
  • Usar a arte como uma prenda para alguém (não me revi nesta parte, ainda estou na fase de ser uma prenda para mim);
  • Deixar os personagens crescerem por si e revelaram-se a nós;
  • Mostrar os drafts a alguém é importante antes de os enviar a agentes ou editores;
  • Formar um grupo de escritores pode ser uma mais-valia.

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Agora ainda me falta escrever quase 200 palavras. Vou voltar para o guião.