A chegada
O último dia no hospital começou com a possibilidade de o miúdo ter icterícia. Acordei depois de dormir umas 5 horas. Recebemos vizinhos novos no quarto e o bebé deles estava quase colado a mim, aos berros. E por mais estranho que pareça, adormeci embalado com o choro dele. Com isso e com o Spike, uma imagem mental que criei para me ajudar a dormir. É um desenho animado, a preto e branco, cabelo espetado e negro, cara magra e queixo fino para fora, com o super-poder de transformar qualquer parte do corpo em agulha. Foi para isso que a minha cabeça se virou para me fazer dormir em situações inóspitas.
Voltando à icterícia, acordei com a enfermeira a tirar sangue do pé do miúdo e a minha namorada a dizer-me que ele pode ter esta doença. Parecia um pouco amarelo então quis fazer o teste. E bem.
Isto passou-se. Uma hora depois fomos praticar o banho do bebé, em que fui eu o feliz contemplado. Tirando, com a moca de sono, quase meter na água o miúdo vestido, a coisa correu bem. Segui as instruções e ele ficou lavado. Limpar o coto umbilical também foi o seu desafio, aquilo parece um caracol seco e é mesmo estranho mexer lá.
Lá para a uma da tarde, chegou a pediatra com a notícia que íamos ter alta naquele dia. Suponho que signifique que o resultado do teste foi negativo, caso contrário teríamos de ficar lá mais um dia com o bebé a fazer fototerapia. Esperamos mais duas horas e saímos do hospital. Recebemos bom feedback da nossa capacidade de prender um recém-nascido na baby cock e vim a conduzir para casa. Aterrador conduzir com um filho no carro. Cada rotunda parecia um exercício militar Russo na fronteira com a Ucrânia.
Chegando a casa, montei o berço de viagem, para ter um sítio na sala para deitar o bebé. Só a montagem foi um desafio, aquilo tinha tantas instruções como o meu miúdo acabado de nascer. Mas lá se fez.
Introduzimos a Leia, a cadela, ao moço. Outro momento de terror. Estava sempre a pensar que ela o ia comer. Tomámos todas as precauções, mantendo-a presa enquanto cheirava as roupinhas, primeiro, e depois a própria criança. Correu bem, ela ficou mesmo muito calma com toda situação, o que nem é normal da parte dela.
Tive também um momento incrível com a minha mãe, que conheceu pela primeira vez o bebé. Ela ficou tão emocionada que me emocionei também. Dos melhores abraços que tive com ela. Mencionou que não esperava viver tempo suficiente para ser avó. A força dela garantiu que isso acontecesse.
Agora o negativo, estar em casa, sem o apoio das enfermeiras não é ser fácil. Amamentar voltou a ser um desafio complicado para a mãe mas foi superado com perseverança e dedicação. Os choros intensos e cocós com tons da nova coleção primavera-verão deixam-nos em estado de alerta constante. É muito difícil cuidar de um bebé quando não se faz ideia do que está a acontecer, se tem cólicas, frio, quer mamar, tem a fralda suja, apanhou uma transmissão extraterrestre...