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Candonga

Mercado negro de ideias da minha cabeça.

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15 de Fevereiro, 2022

The Book of Boba Fett

The Book of Boba Fett é a mais recente série centrada no universo de Star Wars. Nunca sabe o que rea

Bruno Gouveia

Nem sei por onde começar a esquartejar esta primeira (e única, espero) temporada de Book of Boba Fett. Talvez pelo conceito. O que parece, pelos primeiros episódios, ser a história de um dos mais amados personagens do mito da Guerra das Estrelas, passa a ser uma nota de rodapé (daqueles rodapés bem marcados pelos constantes embates com aspiradores) na saga de um mais interessante protagonista, o Mandalorian. Quando os melhores episódios da série, que tem o nome do seu personagem principal, não o incluem, algo está muito mal. E quando trinta por cento da série trata de uma demanda tangencial à principal, o ritmo da série sofre. Falo do episódio cinco e seis que seguem as aventuras de Din Djarin e Grogu e que deveriam fazer parte da terceira temporada da série a que eles pertencem. Com este detour, perdemos tempo precioso que seria bem mais útil a dar-nos motivos para nos interessarmos em alguma coisa da esfera da vida de Boba.

Agora vamos imaginar que esses dois episódios de Mandalorian não pertencem ao Book of Boba Fett. Ficamos com o quê? Com uma história sem nexo, com personagens sem personalidade nem motivação, com cenas de ações ridículas e inusitadas. E é nisso que me vou focar no resto desta crítica. Parto do princípio que o enredo paralelo do Mando é uma série à parte.

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Havia tanto potencial na cidade de Mos Espa para criar uma intrigante guerra de facções, jogos políticos, vício e traição. Nada disso acontece. É quebrada a regra do show, don’t tell. A série apresenta-nos as várias famílias do crime, os intervenientes políticos e os supostos representantes dos cidadãos (os Mods) da maneira mais vaga possível. Nada os caracteriza, não se constrói o mundo que eles habitam. Aparecem e pronto. É-nos pedido que acreditemos que existe mesmo algo em jogo. Mas não existe. A série não proporciona conflito e, por isso, falha narrativamente.

Gostava de dizer que apesar disso os actores conseguiram trabalhar. Com muita pena minha, não o posso fazer. Não por demérito deles, mas porque foram servidos de diálogo absurdo e exposições repetitivas. Nunca puderam demonstrar qualquer tipo de sentimento, pois nada havia no papel. Não se percebem as motivações de nenhum dos intervenientes, além do sindicato do crime que pelos vistos é motivado pelo tráfico de Spice, que nunca se percebe ao certo o que é neste universo. Os argumentistas devem ter pensado que quem vê esta série também deve ter visto ou lido o Dune e não é preciso explicar as implicações que tem no mundo de Star Wars.

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E as cenas de ação? De certeza que uma série da Disney com uma produção de milhões vai ter cenas que definem uma geração. Não é o caso. Desde o parkour do primeiro episódio, passando pela perseguição das motas coloridas, até ao último episódio com rodopios inúteis, são cenas lentas, trapalhonas e sem sentido. Esperava-se muito mais de Robert Rodriguez. Deixo aqui uma paródia que captura a essência do ridículo da coreografia do último episódio:

Mesmo os piores momentos da saga da Guerra das Estrelas adicionam alguma coisa ao folclore. Por muito más que sejam as prequelas, a série de animação Clone Wars conseguiu pegar em alguns diamantes em bruto e poli-los de forma interessante. Receio que neste caso isso não aconteça. O que foi adicionado ao universo? Os mods, um bando de pessoas com fetiches por ciborgues que se destacam pela negativa. Todo o seu visual contrasta com o estabelecido de Tatooine e não há nada que os justifique. Nem a eles nem às motas coloridas evocativas de Power Rangers. Também a Fennec Shand se tornou numa ciborgue, como é revelado num dos flashbacks, mas sem qualquer consequência para a personagem.

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Para acabar, The Book of Boba Fett é um falhanço em múltiplos níveis, do conceito à execução e a única coisa que a redime é o Cad Bane em live-action. Já não se perde tudo. Que venha a terceira temporada do Mandalorian.