Transe
Hoje entrei em transe. Ou o que acho ser transe. Depois de um ataque de claustrofobia, acho eu que era claustrofobia, pelo menos foi o que senti no concerto dos Arctic Monkeys no Super Bock Super Rock. Senti uma corda ao pescoço, primeiro parecia ser só uma batata frita mal engolida mas depois percebi que era mais que isso.
Sentei-me na cadeira de baloiço, entrelacei as pernas por cima do sofá, pedi à minha namoradapara ligar o Tidal na TV e por o álbum de Pálidos a tocar. Fechei os olhos. Comecei por imaginar quadrados e círculos numa dança alucinogénica. Percebi que estava a imaginar em duas dimensões e que isso é muito pouco. Os quadrados transformaram-se em cubos e depois em cristais coloridos e caleidoscópicos. Círculos tornaram-se mares de arames que eu desviava como quem desvia aquelas cortinas anti-moscas que os avós da minha prima tinham na casa de campo. Depois deixei de sentir o corpo. Vieram-me memórias à cabeça. Das mais traumáticas. Maioritariamente de infância: lutas na primária; ser roubado por amigos do bairro; um gandulo vizinho a mostrar a pila entalada no elástico das calças quando levantava a camisola; a mesma pessoa a maltratar uma gata e ficando ensanguentado nas mãos enquanto a rodopiava e a atirava contra uma parede; roubarem-me a carta do Charizard; não acreditar que uma colega do nono ano gostava de mim; chamarem-me copinho de leite e outras memórias, as piores da vida, que ainda não tenho maturidade para falar nelas ou as escrever.
Quando acordei não sentia o meu corpo. Só imaginava que as minhas pernas suspensas deveriam estar completamente dormentes mas não as conseguia mexer. Só conseguia grunhir, nem os lábios se moviam. Aos poucos, como se estivesse a descolar de uma caderneta de cromos, fui mexendo a boca e lá consegui desbloquear o resto do corpo.
Os barulhos do Gaspar fazem lembrar os sons de jogos de 8 bits. Acho que conseguia sonorizar um Super Mario só com samples dos pequenos grunhidos dele.
Acabei o “Operating Instructions: A Journal of My Son's First Year”. Não foi incrível, um bocado repetitivo e com religião chalupa a mais, mas foi interessante ler algumas experiências que me esperam. Voltei à banda desenhada, vou acabar o Ultimate Spider-man que deixei a meio. O que é fixe para o meu objectivo do Goodreads, como está partido em vários volumes, cada volume conta com um livro dos 52 que me comprometi a ler. E não tem porque não contar. Acho que vou intercalando os vários volumes com outras coisas, para não me massar. Também quero voltar aos romances de Star Wars, High Republic. Tudo a seu tempo.